O silêncio aduba a maldade
Tema Sensível. Gatilho emocional
Brinquedo
O brinquedo esnobado no lixo
vai ser alegria na casa alheia da outra menina.
Lá onde habita o bicho
de olhos gentis e gestos família
certificado na hierarquia ser o provedor.
Sabe camuflar as dores,
esconder o sangue usando alvejante
descolorindo do brio cores todas
ocultando pravo atitudes podres.
Submersa em magia
sai a menina de cena aos pulos
foge pra terra das mil fantasias,
e flora a mulher na angústia-surdina
num desabrochar de torturas parrudas
aos urros no tom da moléstia ardente,
grudada de culpas coladas nas costas:
um peso de não suportar por ninguém.
O brinquedo esconde segredos,
abraça a menina e chora por dois.
Soluça a menina brincando na praça
balança e deseja ser nuvem dispersa
até desmanchar-se em águas
correndo direto ao rio,
mas leva consigo sem trégua
a suja enxurrada da mão varonil.
O tempo enterra as águas da chuva
sufoca as mágoas na terra e turva
memórias: sangria daquela menina
nos idos desmemoriados.
A menina-mulher quis fingir esquecer
tatuagem-floral cicatriz encobriu;
não soou sua dor;
não ousou descrever;
assentiu a ninguém a justiça pra si.
O brinquedo na estante da sala
reclama de dia,
de noite:
─ É tempo demais na estante da sala.
O brinquedo jamais se esqueceu
das noites;
dos choros;
daquela menina encolhida ao lençol protetor;
dos dias depois;
dos pais fingidores;
das dores;
do choro dos dois;
da menina saindo de cena ─ fugindo ─,
buscando onírica terra ─ fingindo.
Reaprende o brinquedo a sua função
e mais uma vez, pensativo, se cala
permitindo a si cicatrizar
ao abandonar a estante da sala.
Volta ao lixo, esnobado,
levando consigo verdades,
sabendo será alegria na casa de outra menina,
porque o silêncio aduba a maldade.
Poema publicado no livro Esternotomia, disponível aqui: https://abrir.link/Lkonx
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